Logo abaixo, segue os significados de algumas palavras que fazem relação com o tema em alguns períodos do século XX, mostrando assim a evolução na grafia e a compreensão do sentido dessas em fases.
Até 1930
•Colonização (achado por colonialismo): systema, maneira de colonizar “... seriamós forçados a compreender a nossa distância do povo como transitório fenômeno de inferior colonialismo na ruda americana”.
Raça: ascendência africana. “s. não é bem branco, tem sua raça! Não está muito longe da costa”.
•Igualdade (achado como iguala): Identidade de posição social. “Si se trata-se de pessoa com minha iguala eu não estaria aqui com tantos roduos...( Coelho Neto, A cigarra e a formiga, p.170)
•Não possui etnia e diferença.
De 1930 até 1950
•Colonização: s.f. De colonizar + (mais) ação. Acto ou efeito de colonizar. (não há mudança na grafia, apenas uma pouca mudança no significado, onde de maneira de colonizar, passa a ser ato de colonizar).
•Etnia (encontrado como etno ou ethno): elem. Gr. Ehtnos. Termo de composição que exprime idéia de povo, gente, nação: etnodicéia, etnografia. (não possuía no dicionário anterior).
•Raça: s. f. Conjunto dos ascedentes e descendentes de uma família, de um povo. Variedade de uma espécie cujos caracteres particulares são persistentes e transmitidos hereditariamente. Grupo de pessoas com certas e determinadas qualidades ou predicados. Boa casta: cavalo de raça. (Não há mudanças na grafia. Contudo a percepção restrita de ascendência africana não é mais aplicada. Hoje, todo povo tem uma raça (é considerado de raça) não só os africanos).
•Igualdade: s.f. Lat. Oequalistas; oequalitatem. Relação entre cousas iguais. 2. Qualidade daquele ou daquilo, que é igual 3. Uniformidade 4. Polit. Identidade de condições entre os membros da mesma sociedade. 5. P. Us. Eqüidade, justiça. 6. Alg. Expressões de duas quantidades que tem o mesmo valor; equação. (apresenta mudanças na grafia iguala-igualdade. Em 1928 era entendido somente como um conceito social ,referindo-se a indentidade ou a posição. Diferente de a partir de 1930, onde outros significados são atribuídos).
•Diferença: ou differença. S.f. Lat. Differentis. Qualidade daquele ou daquilo que é diferente; falta de semelhança. 2. Alteração. 3. Desconformidade. 4. Divergência. 5. Desavença. 6. Inexatidão. 7. Prejuízo, transtorno. 8. Dúvida. 9. Contenda disputa desinteligência. 10. Excesso de uma grandeza ou quantidade, em relação à outra. [...] (não possuía diferença no dicionário anterior)
De 1950 até 1964
•Colonização: acto ou efeito de colonizar: A colonização do Brasil pelos Portugueses. (Não há mudanças)
•Etnia: Sociol. Mistura de raças caracterizadas pela mesma cultura (têrmo criado para evitar a palavra raça). ( Mudança na grafia: ethno-etnia. Não há mudanças no significado).
•Raça: povo, geração, descendência, etnia, grupo de indivíduos com os mesmos característicos biológicos e psicológicos. Lat. Ratio, no significado da modalidade, maneira própria de ser, usado já por Cícero, pelos santos Padres e depois em toda filosofia medieval. Neste, sentido apareçe em provençal raspa e daí se propagou à linguas da península ibérica. Ital. Razza.(Não há mudanças)
•Igualdade: relação entre coisas: igualdade entre dois números. Qualidade do que é igual, liso, unido: Igualdade de terreno. Uniformidade: Igualdade de génio. Antón.: desigualdade. (não há mudanças).
•Diferença: Qualidade daquele ou daquilo que é diferente. Falta de semelhança. Alteração. Desconformidade, diversidade. Divergência. Desavença. Inexactidão. Prejuízo, transtorno. Excesso de uma grandeza ou quantidade em relação a outra: 4 é a diferença entre 6 e 10. Analogia: semelhança. ( não há mudanças)
De 1964 até 1986
•Colonização: Ato ou efeito de colonizar. Ato de estabelecer colônias Estado de colonizado. Dispersão e desenvolvimento de uma espécie ou outro grupo natural em uma área nova. (Não há mudanças na grafia. A palavra começa a ser entendida não só como o ato de colonizar, povoar um território, mas sim também como a dispersão e o desenvolvimento do povo nesse).
•Etnia: Mistura de raças caracterizadas pela mesma cultura (termo criado para evitar a palavra raça). (Não há mudanças. O dicionário deixa explicito que o termo foi criado, em busca de substituir a palavra raça)
•Raça: S.f (ital. razza e esse do I. ratio). 1.Conjunto dos descendentes e ascedentes de uma família ou de um mesmo povo. 2. Estripe, geração, origem, casa, brasão. 3. Cada uma das grandes famílias em que se costuma dividir a espécie humana. 4. O tronco comum, onde têm origem as várias classes de animais. 5. Grupo de seres caracterizados por qualidades análogas. 6. Categoria, classe ou grupo de pessoas com certas e determinadas qualidades ou predicados. 7. Descendentes (de qualquer sexo) 8. Os homens em geral; a humanidade. [...] 11. Sociol. Conjunto dos indivíduos de determinada combinação de caracteres físicos genèticamente condicionados e transmitidos de geração em geração em condições relativamente estáveis. [...] (não há mudanças).
•Igualdade: s.f. (I. aequalidade). 1.Qalidade daquilo que é igual; uniformidade. 2. Conformidade de uma coisa com outra em natureza, forma, qualidade ou quantidade. 3. Relação entre coisas iguais. 4. Completa semelhança. 5. Paridade. (não há mudanças)
•Diferença: s.f. ( I. diferenttia). 1. Qualidade ou estado de diferente; desigualdade. 2. Propriedade ou característica pelo qual pessoa ou coisas diferem: Não houvesse a diferença de cor, os dois tecidos seriam iguais. [..] Divergência de opiniões; desacordo, discordância, dissensão, controvérsia. [...] (não há mudanças)
Moderno
•Colonização: s.f. (colonizar+ção) 1 Ato ou efeito de colonizar. 2 Ato de estabelecer colônias. 3 Estado de colonizado. 4 Biol Dispersão e desenvolvimento de uma espécie ou outro grupo natural em uma área nova. (não há mudanças)
•Etnia: s.f. (etno+ia1). Sociol Mistura de raças caracterizada pela mesma cultura (termo criado para evitar neste caso a palavra raça). (o dicionário deixa explicito que não é em todo momento que a palavra raça pode/deve ser substituída por etnia)
•Raça: s.f. (ital razza e este do lat ratio) 1 Conjunto dos ascendentes e descendentes de uma mesma família ou de um mesmo povo. 2 Estirpe, geração, origem, casa, brasão. 3 Cada uma das grandes famílias em que se costuma dividir a espécie humana. 4 O tronco comum, onde têm origem as várias classes de animais. 5 Grupo de seres caracterizados por qualidades análogas. 6 Categoria, classe ou grupo de pessoas com certas e determinadas qualidades ou predicados. 7 Descendente (de qualquer sexo). 8 Os homens em geral; a humanidade. 9 Tipo, casta, classe, espécie, jaez, qualidade, padrão. 10 Boa raça: Cavalo de raça. 11 Sociol Conjunto dos indivíduos com determinada combinação de caracteres físicos geneticamente condicionados e transmitidos de geração a geração em condições relativamente estáveis. [...] (não há mudanças)
•Igualdade: s.f. (lat. aequalitate) 1 Qualidade daquilo que é igual; uniformidade. 2 Conformidade de uma coisa com outra em natureza, forma, qualidade ou quantidade. 3 Relação entre coisas iguais. 4 Completa semelhança. 5 Paridade. 6 Identidade. 7 Mat Expressão da relação entre duas quantidades iguais; equação. 8 Polít Identidade de condições entre os membros da mesma sociedade. 9 p us Eqüidade, justiça. (aparece o significado de justiça, que pode ser entendido como igualdade).
•Diferença: s.f. (lat differentia) 1 Qualidade ou estado de diferente; desigualdade. 2 Propriedade ou característica pela qual pessoas ou coisas diferem: Não houvesse a diferença de cor, os dois tecidos seriam iguais. 3 Alteração. 4 Inexatidão. 5 Divergência de opiniões; desacordo, discordância, dissensão, controvérsia. 6 Prejuízo. 7 Desproporção. 8 Arit O resto, o que fica de um número ou quantidade da qual se subtrai outro número ou quantidade menor. D. ascensional: diferença entre a ascensão reta e a ascensão oblíqua de um astro. D. des¬cen¬sional: a que existe entre a ascensão oblíqua e a ascensão reta de um astro. S.f. pl Contendas, desavenças. Antôn (acepção 1): semelhança. Fazer diferença a: causar incômodo, transtorno a. (pode-se observar, a partir de agora, que em frases como fazer diferença a, pode ser entendida como um incômodo ou transtorno)
Dicionários Históricos
Nos dicionários históricos, foi possível encontrar as seguintes palavras:
•Colonização:
No século XIX, o termo designava o estabelecimento de núcleos de europeus em terras brasileiras. Pode-se dividir a colonização, no período imperial, em dois grandes modelos: o dos núcleos coloniais, com pequenas propriedades trabalhadas em regime familiar- modelo camponês ligado à lavoura de subsistência, e o modelo ligado à substituição da mão de obra escrava, destinado a cafeicultura em expansão. Assim, o colono, sobretudo no Brasil meridional, era o lavrador autônomo assentado em pequenas propriedades, denomina “sitiante” em outras áreas do país. Já nas regiões de lavoura cafeeira, colono era o trabalhador rural.
Em contrapartida, durante o período imperial, jamais foi sistematizada, salvo em alguns projetos, uma política para a utilização do trabalhador nacional livre ou liberto como substituto do escravo ou como integrantes dos núcleos coloniais, embora tenha sido ele a tomar o lugar do escravo em várias províncias, como as do nordeste algodoeiro. Nos núcleos coloniais, costumavam impedir ao trabalhador nacional ao acesso à terra, gratuito ou por compra.
A opção pelo imigrante europeu ancorou-se na convicção de que o branco seria o elemento capaz de transformar o Brasil numa nação civilizada, posto que africanos e asiáticos eram tidos como racil e culturalmente inferiores. Estadistas e teóricos do imigrantismo defendiam que os europeus fatalmente acabariam por se relacionar com os nacionais, formando famílias, o que tornaria o Brasil mais branco.
Por interferência de José Bonifácio, foi política do Estado, escolher áreas ainda dos povoados, no sul do Brasil, para criação de núcleos, pretendendo, além do branqueamento da população, povoar e consolidar fronteiras. Até 1930, o governo imperial subsidiou vários núcleos coloniais, a exemplo, da colônia Alemã de São Leopoldo, criada em 1855 alcançou cerca de doze mil habitantes. Em núcleos como São Leopoldo, dividiam-se as terras em lotes de mesmas proporções, distribuídos pelas famílias, com demarcações de um terreno comum, onde se localizavam o centro administrativo, as escolas, as associações, as igrejas- católica ou protestante- no cemitério, o comércio.
Outras colônias surgiram, no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná na década de 1820, como as de Três Forquilhas, São Pedro de Alcântara, Torres, São João das Missões e Rio Negro. Várias desapareceram absorvidas pelas comunidades locais.
A expansão das colônias baseadas na pequena propriedade e no trabalho familiar foi responsável pelo povoamento e ocupação de extensas áreas, acabando por ligar, nas províncias do sul, o interior do litoral.
O estímulo à constituição de núcleos coloniais estaria ligado, em boa medida, à necessidade de recuperar o abastecimento do mercado de alimentos, estremecido com a venda de mão de obra escrava. As sociedades do sul de todo modo, não se reduziram a um conglomerado de imigrantes, pois ao lado do colono parcelário e policultor, havia o grande fazendeiro que via o colono como inferior, tratando-o com desprezo.
Em termos de cultura, houve contribuição expressiva dos imigrantes nas técnicas agrícolas - especialmente no uso do arado, da grade e de carroças de quatro rodas.
Desenvolveram a policultura, sem prejuízo de tendências regionais, como o predomínio da suinocultura, de alemães e italianos, no Rio Grande do Sul e, a indústria de lacticínios e de conservas, em Santa Catarina.
A manufatura de tecidos e malhas também se desenvolveu nesses núcleos coloniais, e inúmeros artesãos migraram para as cidades fundando ou trabalhando em oficinas.
O abrasileiramento dos núcleos coloniais não impediu que muitas colônias mantivessem na medida possível, sua língua, na região e escolaridade de modo que se tornou preocupação de vários políticos o fato de descendentes de imigrantes, já brasileiros, não conhecerem nem mesmo o português, fechados em suas comunidades. Por outro lado, o imigrante também influenciou a população local, por exemplo, na sua atitude devocional posto que outros santos católicos, além de ibéricos passaram a ser cultuados pelas populações do sul do Brasil.
•Raça:
A moderna noção de raça é uma construção de pensamentos científicos europeus e americanos do século XIX que apenas tardiamente chegou ao Brasil. Alguns autores como Buffon e De Pauw, referindo-se a infantilidade do continente americano, embasearam futuras teorias sobre a desigualdade racial no continente, ao considerarem a existência de heranças físicas, que diferenciaram permanentemente os grupos humanos.
Apesar da entrada tardia do pensamento científico envolvendo raça, no cenário brasileiro, essa palavra, porém, não deixou de estar presente no vocabulário presente no Brasil durante o final do período colonial e o início do Império, como marca importante das hierarquias sociais herdadas do império português.
Conjunto de leis como as Ordenações Afonsinas (1446-1447), Ordenações Manuelinas (1521) e ordenações Filipinas (1603), já consideravam algumas raças como infectas. São os casos dos mouros, judeus, ciganos, indígenas, negros e mulatos.
Aqui no Brasil, a noção de raça infecta, herdada do império português estava relacionada a pureza de sangue. Tais desigualdades, assentadas na religião e na idéia de linhagem, foram lentamente suprimidas de forma progressiva, a medida que os princípios iluministas e as idéias de liberais se expandiam na jovem monarquia brasileira, apesar da manutenção da escravidão em nome do direito de propriedade. Contudo, as hierarquias e as classificações etnossociais continuaram.
Os paradigmas iluministas do direito de propriedade e da igualdade legal de todos os homens, contrapostos as antigas hierarquias coloniais, tiveram base numa discussão intensa sobre a introdução política e social dos “não bancos” livres na sociedade.
A partir de 1870, os intelectuais brasileiros começaram a pensar nos dilemas da construção da nação com base no racismo cientifico.
Apesar da forte influencia do darwinismo sobre os intelectuais do Brasil, a absorção das teorias raciais se fez de forma original, devido a intensa miscigenação, de forma que em 1872, o termo raça foi incluso no recenseamento geral.
As novas percepções racializadas do povo brasileiro reatualizaram e até fortaleceram preconceitos, no momento da abolição da escravatura. Não chegaram porém a estimular fronteiras raciais nítidas no conjunto da população, ao valorizarem, de certo modo, o processo de mistura e a própria miscigenação.
Observação: O significado das palavras no dicionário histórico foi resumido, ou seja foi criado um texto a partir dos significados expressos no livro.
Logo a seguir serão apresentadas duas obras de ficção: a primeira trata-se da história de um escravo negro no período colonial brasileiro. Na segunda, uma estória de uma indígena, também na época da colonização. Estórias
Capítulo I
Brasil, 22 de Abril de 1500.
Moema estava em mais um dia cansativo de trabalho. Não ligava para quanto tempo demorasse em seus afazeres. Ela amava a vida, amava seu marido, Piatã, um dos chefes da tribo. Mas acima de tudo amava seus filhos, Rudá, de seis anos e Marié, de três anos. Sempre que podia agradecia ao seu deus supremo, Tupã, por tudo de bom que estava acontecendo em sua vida. Porém, não tinha idéia de que tudo da a sua vida estava prestes a mudar.
A tribo Tupi era um local bom para se morar. Todos os dias, Moema ficava em casa aprontando a comida e cuidando dos filhos enquanto Piatã ia caçar. Acordava bem cedinho, na aurora, e já começava o serviço. Muitas vezes Piatã marcava com os amigos para pescar, e saía bem cedo de casa, até mesmo antes de Moema acordar.
Naquele dia, Piatã havia saído cedo e avisou Moema que iria voltar somente à noite. Tamanha foi a sua surpresa quando no nascer do sol Piatã já estava em casa:
-O que houve?
-Não há tempo para explicações.
-Mas...
-Pegue nossos filhos e leve para a mata. Se escondam e fique por lá até eu voltar.
Naquele momento, Moema largou tudo o que estava fazendo. Não importava o qual importante fosse fazer o traje do cacique para o ritual da deusa lua Araci. Seus filhos eram os bens mais preciosos de sua vida.
-Meus filhos, acordem!
-Mãe, o sol mal raiou.
-Rudá, não há tempo a perder. Devemos nos esconder na mata.
-Por quê?
-Não sei. Seu pai me pediu isso.
-Está Bem.
-Pegue tudo o que puder.
Moema pegou seus filhos cuidadosamente nos braços, os cobriu, e todos se dirigiram até ao calda silenciosa que era a mata. Em muitas ocas as mães repetiam a mesma cena, enquanto em outras, jovens guerreiros iam à beira do mar em busca de seus pais.
Capítulo II
No interior da mata, havia uma bela queda de águas cristalinas, com cristais no fundo e muitos peixes. Essa bela paisagem escondia uma gruta, um esconderijo secreto dos Tupis. Foi ali que muitos desses estavam indo se refugiar.
A gruta era um local espaçoso, a ponto de caber muitas famílias ali dentro. Sempre o Cacique da tribo, Ubiratã , deixava comida e lenha se caso houvessem imprevistos como este. Ali as horas passavam, deixando Moema cada vez mais apreensiva.
Enquanto isso, na praia, os guerreiros da tribo estavam postos na areia, e de longe, viam cada vez mais aproximar-se grandes construções de madeiras. Eles não sabiam ao certo donde vinham e nem como andavam. Alguns falavam que era um sinal dos deuses e ficavam felizes, outros se recuavam e ficavam com medo.
À medida que cada vez mais foram se aproximando, os índios começaram a temer tamanho feito: O que será isso?
De repente, elas pararam e viram que homens começaram a descer do barco. Porém eram diferentes: usavam “coisas” espalhadas pelo corpo, e cobriam os pés. Carregavam na mão algo brilhoso, que eles não poderiam definir o que era.
Vagarosamente aqueles homens foram descendo e em pequenos barcos chegavam mais perto da costa. Possuíam pele clara, usando tecidos por todo o corpo.
Quando desceram, começaram a correr em direção aos índios, que foram para o ataque. Porém logo se redimiram, quando um daqueles homens que carregava o objeto brilhoso na mão apertou algo, que fez sair um imenso estrondo que ecoou pela mata.
Nesse momento, até mesmo as famílias que estavam na gruta assustaram-se e recolheram–se em absoluto silêncio, escondidas somente pelo véu da água.
Eles mal sabiam que aquilo era uma arma, que poderia provocar um imenso massacre.
Piatã foi com coragem até os homens “estranhos” e perguntou quem eram. Os homens não o entenderam. Um dos homens da armada disse:
- Viemos de Portugal, uma terra distante...
Esse primeiro contato havia sido de estranheza e de certa admiração e respeito. Ninguém da tribo os entendia. Então todos se aproximaram e começaram a tentar se comunicar por gestos.
Moema não se conteve de curiosidade e foi até a areia ver o que estava acontecendo. Antes de ir, disse aos filhos:
- Fiquem aqui, não saiam por nenhum motivo! Pode ser perigoso.
- Tudo bem mãe – disseram as crianças. Quando chegou à beira da praia, Moema levou um susto vendo aqueles homens diferentes. Então foi direto a Piatã perguntar o que aqueles seres faziam ali:
- Esses homens estão aqui porque não tem onde ficar. Vieram de longe, muito longe nessas grandes canoas.
Enquanto isso um alvoroço acontecia entre os portugueses. Havia um deles no meio com um pergaminho e caneta-tinteiro feito de pena, que a cada mínimo movimento escrevia algo: era o escrivão da esquadra, Pero Vaz de Caminha. Até que um homem se sobrepôs: era Pedro Álvares Cabral.
- Bem, vamos olhar o lugar.
Piatã estava estranhando aqueles homens. Quando começaram a partir para o interior da mata, saiu correndo para ver até onde eles iriam.
- Eu também quero ir – disse Moema a Piatã,que saiu correndo atrás de seu marido.
A mata era densa, os índios já estavam bem adaptados a ela. Os portugueses terminaram de explorá-la o tanto que achavam que podiam durante muitos dias.
Os indígenas acompanharam uma missa na costa, eles não entendiam e não sabiam do que se tratava. Alguns afloraram a curiosidade e logo queriam aprender o que era aquilo. Outros não mostravam mínimo interesse.
Os portugueses não se mantiveram ali por muito tempo. Apenas trocaram algumas coisas com os indígenas. Logo partiram, e o ritmo da tribo voltou ao normal.
Capítulo III
Passado algum tempo, as grandes embarcações voltaram a aparecer no horizonte. Os índios não mais ficaram com medo, pois já sabiam do que se tratava.
Dessa vez vieram mais homens, e muitos deles diferentes, inclusive o capitão da esquadra, que agora era Américo Vespúcio.
Novamente resolveram adentrar na mata. Após caminharem pela densa floresta, os brancos depararam-se com uma relíquia: como não poderiam conhecer aquela árvore, que dava tanto dinheiro na Europa. O Pau-brasil estava na frente deles e em grande quantidade.
- Não acredito no que estou vendo – sussurrou Américo para outro português.
- Essa árvore vale milhares de libras. Senhor, não acredito, isso é Pau-brasil!
Os portugueses já conheciam essa árvore por causa do comércio das Índias. Os comerciantes árabes levavam o pigmento da árvore e a própria madeira do Pau-brasil.
Piatã já estava se entendendo bem melhor com os portugueses dessa vez.
No dia seguinte, Vespúcio foi até Piatã pedir para cortar um tronco de Pau-brasil. Inicialmente ninguém da tribo permitiu tal feito, porém os portugueses começaram a mostrar-lhes espelhos, facas e pequenos utensílios que fascinaram os índios. Em troca de um Pau-Brasil, Piatã recebeu um espelho.
Vespúcio chamou alguns de seus companheiros portugueses para ajudá-lo a cortá-la, e depois de algum tempo, o Pau-brasil estava no chão. Os homens cortaram em pequenas toras, com machados de ferro, deixando os índios assustados, pegaram as toras e levaram para uma das caravelas. Américo estava certo de que aquela madeira era de boa qualidade e que os traria muitos lucros, vendendo-a para o resto da Europa. Logo escreveu uma carta para sua majestade, em Lisboa.
Enquanto os brancos cortavam mais Pau-brasil, Piatã tentava descobrir o que era um espelho. Ficou amedrontado quando olhou para ele e viu outro índio, mas depois de um tempo percebeu que conhecia aquele índio, era ele. Ele já havia visto seu reflexo na água algumas vezes. Não entendeu como era possível aquilo.
Empolgado, foi mostrar a Moema e a seus filhos, que ficaram com mais medo que ele.
O final daquele dia chegou. Piatã e sua família, junto com a aldeia inteira estavam curiosos para saber o que esses “portugueses” queriam. No outro dia Piatã levou os portugueses para conhecer mais a região, e ganhou mais espelhos em troca de Pau-brasil.
Depois de alguns dias, já meio acostumado com a rotina, Piatã percebeu que algumas das “grandes construções de madeira” haviam desaparecido, ido embora e eram as que estavam com o Pau-brasil.
Capítulo IV
Após ver os navios indo embora com suas preciosas árvores dentro, Piatã ficou preocupado e foi falar com os brancos sobre o que iriam fazer com o Pau-Brasil. Bruno, um português que cuidava de todas as árvores cortadas, revelou que não precisava se preocupar, pois não seria nada anormal, e ainda prometeu a Piatã mais espelhos se lhes concedessem alguns índios para ajudar na retirada de árvores.
Piatã não queria mais tantas árvores caídas, não importava a quantidade de espelhos. Alguns índios concordaram com o grande guerreiro, enquanto outros estavam indecisos em relação a que lado ficar, o dos portugueses ou o dos índios.
Os brancos perceberam essa indecisão e continuaram tentando convencer os índios. Além de espelhos e facas, que eles já conheciam, os portugueses tinham muitas outras coisas a ofertar.
Vagarosamente, os índios da tribo começaram a fascinar-se por objetos mesquinhos. Além do mais, havia muito Pau-brasil. Era assim que pensavam os índios. Piatã resistiu, porém não poderia fazer mais nada. Os índios já estavam indo retirar mais Pau-Brasil para os portugueses.
E é assim que começa a crescer um clima de desconfiança dentro da tribo Tupi. Uns achando que devem seguir Piatã e serem felizes com o que eles já tinham e outros seguindo Ubiratã, querendo mais itens dos portugueses.
Capítulo V
Moema também não estava gostando do jeito como os brancos estavam tirando as árvores, uma vez que estavam destruindo o local onde sempre morou e não queria que seus filhos vivessem sem a tão querida floresta. Já tinha espelhos o suficiente para muitas gerações de sua família e não precisava mais de outros objetos, pois antes da chegada dos brancos vivia feliz sem tudo aquilo.
A bela índia, decidida em conversar com Ubiratã, chegou ao Cacique:
- Cacique, gostaria de pedir que o senhor parasse as trocas com os portugueses, pois toda nossa vida, nossos costumes de sempre usar a simplicidade e o exemplo para nossas gerações estão sendo destruídos. Antes da aparição desses “intrusos” nós vivíamos bem aqui. Então, pela sua tribo, fale com eles para que vão embora, em busca de outros povos.
- Jovem Moema, para quê tanta preocupação? Esses bons homens estão nos ensinando a fazer as coisas de um modo mais rápido, além de viverem em harmonia conosco. Você e Piatã estão muito preocupados com coisas que só trazem benefícios.
A conversa de Moema com o Cacique não adiantou. Eram poucos agora os que concordavam com os dois. Mas eles precisavam tomar alguma medida, antes que ficasse tarde e acontecesse o pior. Se conversar não adiantava, outra medida teria de ser tomada: o ataque.
Capítulo VI
Piatã então reuniu o máximo possível de guerreiros que estavam com eles. Já Moema conversava com as mulheres, para que procurassem abrigo o mais longe possível dali. Amanhã seria o esperado dia, o dia do ataque.
É claro que Ubiratã não sabia da história, apenas continuava a desfrutar dos “valiosos” presentes ganhados pelos portugueses. Se soubesse iria expulsar a família de Piatã da tribo e eles demorariam a achar outra tribo por ali, já que a predominância eram dos Tupis.
O dia havia chegado. Os índios atacaram cedo, antes mesmo da aurora. Correram até as embarcações com suas lanças, derrubaram a porta, e quando viram já era tarde: toda tripulação estava com armas na mão, apontando para a porta. Esse foi o fim de muitos homens da tribo Tupi, que tiveram a coragem de lutar por sua terra e defendê-la. Piatã era um desses homens, o mais corajoso dentre todos, pois foi ele que tomou iniciativa de defesa da terra.
E Moema e seus filhos, como ficaram? Tiveram que sair da tribo Tupi e procurar por outra tribo. Mas isso foi bom, porque pelo menos ela conseguiu avisar outras tribos sobre a invasão de homens barbudos, que só se aproveitavam de índios ignorantes, que só serviam para destruir uma família unida e fazer trocas de objetos muito insignificantes e sensíveis.
Moema vivia numa tribo onde as pessoas escutavam a opinião de todos. Não era tão feliz, pois nada como o lugar onde foi criado e sempre morou com seu marido. Mas a nova tribo era o melhor para uma reconstrução, uma nova vida.
Após alguns anos os tupis descobriram que Piatã era o mais correto entre todos. Como queriam ter ouvido ele antes de serem transformados em escravos.
Fim
MEMÓRIAS, INFELIZES MEMÓRIAS
“Zorem era somente mais um negro solitário vivendo na terra de Santa Cruz, sob um regime altamente escravista, onde predominava a dor e o sofrimento.Era apenas um escravo a mais nas mãos dos escravocratas.”
CAPÍTULO I
Como era bonito o pôr do sol na África. Lembro-me até hoje do mar batendo contra as rochas e eu ali, uma criança feliz aproveitando o melhor da vida, achando que tudo era perfeito e que não poderia mudar.
Parece que isso ficou tão distante, apesar de terem se passado apenas vinte dias de uma jornada que dura meses. Sim, conseguiram me pegar, mesmo eu fugindo tantas vezes. Agora estou preso neste navio imundo, quase sem comida e água. As condições são péssimas. Mães dão à luz sem qualquer atenção. Muitos não agüentam e morrem. Logo depois são lançados ao mar pelos portugueses, os brancos.
E as tempestades, nem quero lembrar-me dos dias mais tenebrosos que estamos passando aqui. Alaga tudo, até os portugueses ajudam a tirar a água que entra no navio. Cada vez que cai uma tempestade, e cai com freqüência, o navio se torna mais vazio. Não dá para notar muito, pois ficamos todos amontoados aqui, um em cima do outro por falta de espaço, mas do mesmo jeito, um dia depois muitos choram e lamentam pela ausência dos entes amados.
Um dos negros, que vive só no navio servindo e cuidando para que não haja exaltação, disse-nos que há muitas mulheres morrendo de fome porque dão comida aos filhos. É claro que se algum branco vê-lo conversando conosco, os homens aqui do navio, ele será castigado e talvez morto, mas só estava dizendo isso pois nessa viagem sua irmã juntamente com seu sobrinho estavam no navio, e ela morreu de fome, deixando de comer para dar comida à criança.
Acho que não vou morrer tão fácil, contudo fico fraco pelas condições em que vivo e por ver meu querido povo, passando por isso também. Os brancos exigem muito de nós, os negros. Quando não cumprimos suas ordens tomamos severos castigos, por isso tento não chamar atenção deles. Terei de me acostumar com isso, pois esta será a minha vida daqui para frente.
É triste ver o sofrimento de todos. Lembro-me das canções que minha mãe cantava para mim na África, quando ainda era criança e vejo muitas dessas desoladas sem pai ou mãe, sem cuidado.
A vida para todos nós não será nem um pouco fácil. Somos tratados como animais. Os portugueses fazem apostas de qual escravo é o melhor, e palpitam os preços sob os quais seremos vendidos.
Peço todos os dias aos meus deuses que esta viagem acabe logo.
CAPÍTULO II
Por fim, cheguei ao Brasil. Está uma bagunça aqui no porto de Santos. Os escravos encontram-se em fila, cada um recebendo um nome e em seguida sendo levados por um negro até algum local que logo vou descobrir qual é.
Recebi o nome de Elisiário e meu sobrenome será dado de acordo com quem for meu senhor. O homem negro me pegou e depois me jogou num casebre com chão forrado de palha, onde se encontravam muitos outros escravos.
Todos estão tristes e cabisbaixos, sem saber o motivo pelo qual estão ali. E eu, como um jovem negro de Moçambique estava na mesma situação.
Quando já era tarde da noite, o mesmo homem que estava levando os escravos até o local disse que deveríamos acordar cedo na manhã seguinte, pois seríamos vendidos no mercado.
Arranjei um jeito para me aconchegar e tentar dormir um pouco, mas não adiantou, estava ansioso demais.
CAPÍTULO III
O que mais me incomoda no mercado é que não entendo nada do que dizem os portugueses. No navio até não precisava saber, somente três vezes durante a viagem toda tive de sair do lugar apertado em que estava para servir algum branco e sempre eram coisas fáceis de entender, pois eles apontavam para o local onde precisava ajudar e lá sempre tinha outro negro mais experiente que me dizia o que fazer. Aqui no mercado não, riem de nós que estamos no meio deles, como se fôssemos bobos da corte.
Passaram-me um óleo no corpo fazendo minha pele reluzir. Um homem com trajes nobres está olhando diretamente para mim, como se estivesse me analisando. Estou pressentindo que serei comprado por ele pelo jeito que me observa. Parece-me um bom senhor. É alto, elegante e com barba bem feita.
De repente, puxa-me pela camisa e abre minha boca com violência. Olha meus dentes e aparenta gostar. Depois de uma breve “revisão” pelo meu corpo, o homem se afasta e vai ao encontro do negociante. Parece que agora fui vendido.
Um negro que estava próximo, olhando as negociações, disse-me que agora em diante eu teria que chamar aquele homem branco de Senhor, pois havia se tornado meu dono.
Fui levado junto com outros escravos a uma fazenda com o nome de Oliveira. Um deles me disse que agora aquele seria nosso lar.
CAPÍTULO IV
Para nossa sorte, um capataz que pertence ao meu senhor sabe falar nossa língua. Disse-nos que deveríamos ser bons escravos e começou um breve discurso: “Vocês não estão mais na África. Aqui não são mais livres. Suas vontades não valem nada. Apenas obedeçam, aprendam o português e façam tudo bem feito. Se não fizerem isso serão castigados. Bem escravos, por hoje é isso. Vão para a senzala, amanhã é apenas o começo.”
Percebi que as instruções são simples e bastante diretas. Entendê-las não é difícil, mas sim, cumpri-las.
CAPÍTULO V
Minha primeira noite na senzala está bastante difícil, pois eu estava acostumado à minha rede e agora eu durmo no chão, junto aos outros escravos. Cheira mal, o que nos dão para comer nem sei se posso chamar de comida. Contudo, é bem melhor do que no navio, e disso eu não posso reclamar. O único lugar só nosso, livre de castigos ou qualquer outra tortura.
Conforto só tinha nos braços de minha mãe. Ah, que saudades tenho daquela mulher tão guerreira. Queria saber pelo menos se ela está bem, se ela também sente a mesma saudade que eu estou sentindo dela, enfim, preocupações de um filho para com sua mãe.
Antes de chegar à senzala, avistei um grupo de escravos, onde no meio deles havia uma briga. Cheguei um pouco mais perto para ver se precisavam de ajuda para separar a briga, quando ouvi cantos e percebi que não era uma luta, e sim um jogo. Acontecia ali na capoeira, pertinho da senzala e era muito bonita. Um deles me informou que este jogo era para acalmar as mentes e relaxar um pouco, parar de pensar no sofrimento que ali viviam. Mas como aqui nada dura para sempre, somente o trabalho, apareceu um capanga de meu senhor com uma cara de ódio e nojo. Apenas apontou para o tronco. Pronto, já sabíamos o que ia acontecer conosco, a minha primeira vez: íamos ser chicoteados.
Depois do que aconteceu há algumas horas sinto-me abatido, pior do que já estava. A pior coisa que um homem branco poderia fazer para um negro é chicoteá-lo. Ainda mais quando está sem sua família, com fome e sede e não pode reclamar ou gritar de dor. Eu apenas choro silenciosamente no escuro, pensando no pior dia de minha vida. E como sempre, pedirei aos meus deuses que isso acabe logo.
CAPÍTULO VI
Os dias passam rápidos aqui na fazenda. Meu trabalho aqui é cortar e levar a cana até as casas de engenho para que seja transformado em açúcar. Lá , os bois são os que fazem o serviço, rodam o dia todo a moenda para que a cana-de-açúcar depois de meses vire açúcar.
Já estou experiente neste assunto, cana-de-açúcar, pois já faz um bom tempo que estou aqui, por volta de cinco, seis meses. A pior coisa daqui continua sendo a comida. Trabalhamos bastante aqui, mas não ganhamos mais que um mísero pão por dia. Às vezes as escravas fazem uma boa comida que não tem nome, sei que tem restos de porco que o Senhor e sua família não aproveitam como orelhas ou pés. Aproveitamos e comemos muito disso, pois só depois de duas semanas temos de novo.
Nos últimos tempos tenho sonhado demais, e isso tem um por quê: pela primeira vez em muitos anos de existência, estou apaixonado. O nome daquela bela moça desconheço, a única coisa que sei dela é que trabalha na casa de meu Senhor. Todas as tardes eu observo a linda mulher com a pele negra na escada, varrendo. O que mais me encanta nela são suas belíssimas canções. Sua suave voz me comove, o sorriso no rosto todos os dias fazem-na ficar mais bonita e o brilho naqueles lindos olhos me deixa cego diante de qualquer outra coisa, só enxergo minha negra. Eu sei que vou sofrer com essa paixão, e isso por não ter a honra de conhecê-la e por ser muito difícil algum relacionamento aqui na fazenda.
CAPÍTULO VII
O Brasil possui maravilhosas paisagens, mas uma população nem tão boa assim. Como eu queria não ter conhecido os brancos. Não são nem um pouco amigáveis conosco, os negros. Só pelo fato de eles serem brancos e nós estarmos subordinados a eles não quer dizer que podem fazer o que quiser conosco.
Reclamo porque me chicotearam novamente. Por que não usam outro tipo de punição? Eles não sabem o quanto isso dói, por fora e por dentro também. No momento estou todo ensangüentado, com muitas dores. Dessa vez foi o próprio Senhor que mandou nos chicotear, pois não teve boas vendas no mês. Disse que a principal culpa era nossa, que plantamos sem vontade a cana-de-açúcar. Até as mulheres foram chicoteadas, sendo que muitas delas trabalham na Casa Grande.
Mas estamos planejando uma fuga. Descobrimos que há um quilombo a poucos quilômetros daqui, em meio à mata virgem. Não seremos mais castigados por sermos negros e por seguirmos nossas culturas ou até mesmo por nós acharmos a escravidão sem sentido.
No quilombo todos os negros vivem felizes e plantam, cantam e as crianças correm livremente, sem medo.
Dessa noite não passa. Não suporto mais ficar aqui nessa fazenda, trabalhando dia e noite com pouco descanso, sendo castigado, ficando sem comer e beber por nada. Chega! Não suporto mais isso.
Se for da vontade de meus orixás, hoje será o último dia em que estarei saindo na matina para servir “meu Senhor”.
CAPÍTULO VIII
A noite chegou por fim. Hoje fui chibatado mais uma vez. Porém agora estou indeciso de vou fugir ou não. Aquela bela negra me comove, faz-me esquecer as dores e minhas mágoas. Quando a vejo meu coração pula e canta de alegria. Nessa tarde, descobri que o nome dela é Glória.
Mas não há amor que faça sarar tamanho sofrimento. Vou deixar a minha bela amada para trás. Talvez ela também consiga fugir, talvez...
Está fazendo uma madrugada fria, não está como todos os dias. Grilos estão a cantar enquanto vejo os grandes olhos das corujas nas árvores. Pressinto que esse é o momento certo. Faço uma pequena trouxa e saio na calada da noite à procura do quilombo. Veio comigo Morumbá, um dos meus amigos. Conseguimos sair da fazenda facilmente, já que a noite nos encobria.
CAPITULO IX
Adentramos na mata que estava escura. Andamos muitas horas, até que ao fundo vimos um clarão. Era o quilombo. Ficamos felizes, pois até que enfim chegamos ao nosso destino! Podíamos ver várias tochas espalhadas que clareavam todo o território. Pensávamos que estava havendo uma festa. Isso mesmo, só pensávamos.
Vagarosamente chegamos mais perto. Não podia acreditar no que estava vendo, o quilombo estava pegando fogo. Ao longe vimos uma silhueta dum homem montado em um cavalo: era o Capitão do Mato.
Meu coração disparou e nesse momento saí correndo. Não importava o quanto Morumbá era meu amigo. Antes quero salvar a minha vida. Ouço o barulho da cavalgada e logo depois um tiro. Se esse momento não tivesse acontecido não estaria agora com tanta culpa dentro de mim. Morumbá levou o tiro. E eu não podia fazer nada, pois ele ia morrer, mais cedo ou mais tarde. Apenas corri enquanto lágrimas caíam dos meus olhos. Como podia ter deixado um amigo morrer assim? Sou um covarde! Mas agora não havia mais nada a se fazer.
Continuei a correr, agora mais aceleradamente. Eu sabia que o Capitão do Mato estava por vim. Continuei correndo até que vi um tronco grande caído. Não havia motivos para pensar duas vezes, ali me abaixei e fiquei por horas, até ter certeza de que estava seguro sair.
Depois de ver que o nascer do sol já estava por vir e ninguém veio à minha procura, saí correndo pela mata, sem nenhum objetivo. Quando o sol já batia escaldante sobre minha cabeça comecei a ouvi um barulho muito bom: era o mar. Como podia ter me esquecido que a fazenda não ficava tão longe da costa? Nesse momento fiquei feliz, porque ainda conseguia ver um lindo mar azul à minha frente. O mar brasileiro é lindo. Pena que aqui vivi apenas sofrimento.
De repente, percebi que estava sozinho por lá e comecei a pensar nas coisas que haviam me acontecido. Lembrei que nunca recebi meu sobrenome! Pouco importava. Agora, estou aqui sentado na areia branca da praia acompanhando o pôr do sol.
E se construir uma jangada para chegar à África? Seria tão bom chegar a minha tribo e ver que toda minha família estava me esperando e que me aguardaram com uma mesa farta de comida desde minha partida, porque sabiam que eu ia voltar. Bem, se quero voltar é bom que seja rápido, antes que algum malfeitor apareça.
Sei que será praticamente impossível chegar à África com uma pobre embarcação como essa. Mas a esperança é a última que morre. Tenho que me apressar antes que o sol se ponha e fique mais difícil eu partir em rumo à minha mãe África. Minha vida terá outro sentido daqui para frente, tomara que eu tenha sorte.
“Lançado ao mar, Zorem cantava as mais belíssimas canções de sua terra natal. Para ele não importava quanto tempo demorasse a chegar, só queria voltar a ser feliz, e isso aconteceu depois de subir na pequena jangada. Sorte é feita para poucos. Zorem não tinha sorte, mas teve a imensa coragem de buscar a felicidade quando estava no obscuro, e a conseguiu. Mesmo sabendo que morreria no mar, seguiu em frente. Ele sentiu um maravilhoso gosto, aquele que havia perdido e conseguira resgatar: o da liberdade!”
Fim
BIBLIOGRAFIA
*Dicionários
•Até 1930: Novo Dicionário nacional. 11ªedição. Autor: Carlos Teschaver. Editora Globo, S.A - 1928.
•De 1930 até 1950: Dicionário da Língua Portuguesa, Volume II. Autor: Laudelino Freire. Editora A Noite, S.A.-1940. Dicionário da Língua Portuguesa, Volume III. Autor: Laudelino Freire. Editora A Noite, S.A. -1941. Dicionário Básico do Português do Brasil, 1ª Edição. Autor: Antenor Nacentes. Livraria Martins Editora, S.A – 1949.
•De 1950 até 1964: Dicionário Enciclopédico Luso-Brasileiro. Atualizado e aumentado por: José Lello e Edgar Lello. Lello e Irmão-editores-1961. Dicionário Enciclopédico Luso-Brasileiro. Atualizado e aumentado por José Lello e Edgar Lello. Lello e Irmão-editores-1962.Edições melhoramentos. Dicionário Escolar da Língua Portuguesa. Autor: Francisco da Silveira e Bueno. Editora Saraiva - 1964
•De 1964 até 1989: Novo Dicionário Brasileiro Melhoramentos Ilustrado, C-E. Autor: Alberto Prado e Silva. Editora Melhoramentos, S.A. – 1971. Novo Dicionário Brasileiro Melhoramentos Ilustrado, F-M. Autor: Alberto Prado e Silva. Editora Melhoramentos, S.A. – 1971. Novo Dicionário Brasileiro Melhoramentos Ilustrado, N-R. Autor: Alberto Prado e Silva. Editora Melhoramentos, S.A. – 1971.
*Sites
•Dicionário Moderno: Dicionário Michaelis on-line, 2009 (michaelis.uol.com.br).
•http://www.grupoescolar.com/materia/o_ciclo_do_pau-brasil_-_1503.html

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